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Alfredo Cotait Neto: “A minha escala é 7 x 0”

Notícias 10 de março de 2026

Por Alfredo Cotait Neto 

Sou de uma geração que ouvia, desde a infância, os mais velhos dizerem que o trabalho dignifica, engrandece e enobrece o homem. Ocupar um novo emprego era motivo de alegria para toda família. Galgar novos espaços no mercado de trabalho era o objetivo de todos, assim como ascender e ocupar postos mais altos, com mais carga de trabalho e de responsabilidade. Essas memórias têm permeado meus pensamentos sempre que ouço os argumentos daqueles que querem mudar a escala de trabalho no Brasil, reduzindo a jornada. 

O debate é válido, claro. Os tempos são outros, muita coisa mudou, como processos, velocidade, equipamentos, rotinas…. Mas, isso deveria servir para aumentar a produtividade, melhorar as entregas e o resultado final. E não para se debater redução de jornada. Trabalho, para mim, é virtude. Minha escala de trabalho é 7 x 0. Não a vejo como castigo, pelo contrário. 

Além disso, o debate sobre esse tema precisa ser técnico, e não político. Em um ano eleitoral, isso é impossível. Será um processo contaminado pela busca de votos, pelo “holofote” das redes sociais, sem que se discuta impactos na economia e na geração de empregos. Já dizia o economista Roberto Campos: o início do processo da distribuição da riqueza é respeitar quem produz. Os empreendedores precisam ser ouvidos quando essa temática realmente tiver contexto para surgir à mesa. 

Outro aspecto que precisa ser levado em consideração é a produtividade brasileira, baixa e ineficiente, ainda. Temos crises que precedem essa discussão da jornada de trabalho. Temos problemas fiscais, econômicos e, até uma crise moral que desvirtua a discussão. O trabalho é realização, fonte de renda, origem da prosperidade familiar, da sustentabilidade de um país e do crescimento da sociedade. É fato que o Brasil – hoje – tem uma baixa produtividade crônica, resultado de outra crise, a educacional. Dados atuais confirmam que 30% dos adultos brasileiros são analfabetos funcionais. 

Ao defender o adiamento desse debate, a nossa ótica não é contra o trabalhador. É o inverso disso. Afinal, seguimos tudo que está previsto na Consolidação das Leis do Trabalho (CLT). Ao exigir que a discussão ocorra com bases técnicas e profundas, estamos preocupados em não aumentar custos, o que levaria ao crescimento do desemprego e da inflação, em um ciclo que já vimos ocorrer na economia brasileira. Por isso a defesa de que se siga o que já está estabelecido: o negociado prevalecendo sobre o legislado. Há diferentes e inúmeros processos de produção no nosso país. E os mais afetados com qualquer redução serão a base da economia, os pequenos e médios empreendedores, que já sofrem com mão de obra escassa e margem de lucro mínima, decorrente da crise fiscal, que sempre os prejudica. 

Quem hoje defende a redução da jornada de trabalho é inimigo do Brasil e está agindo em busca de votos, sem pensar nas consequências da medida ao setor produtivo. É preciso serenidade, valorização do pequeno e médio empreendedor e discernimento para – no momento correto – iniciar o debate. O Brasil não está preparado para discutir esse tema agora e os parlamentares precisam ter esse entendimento e assumir essa responsabilidade. Impor uma mudança na jornada de trabalho será uma medida nefasta para o Brasil. 

Alfredo Cotait Neto é presidente da CACB e da Facesp

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